Galáxias do Conhecimento

A teia cósmica


Um voo pela teia cósmica. [Créditos: NASA/NCSA University of Illinois Visualization, por Frank Summers; simulação do Telescópio Espacial Hubble: Martin White e Lars Hernquist, da Universidade de Harvard.]

O que é?

A teia cósmica é a estrutura em larga escala do universo. Na simulação acima, os nós brilhantes representam galáxias, enquanto os filamentos arroxeados indicam o material existente entre elas. Ao olhar humano, apenas as galáxias seriam diretamente visíveis.

Na realidade, esses nós não são galáxias isoladas, mas grandes aglomerados contendo milhares delas, intercalados por vastos e raros vazios cósmicos. Ao longo das últimas décadas, os cosmólogos desenvolveram uma compreensão bastante consistente de como essa impressionante arquitetura surgiu.

Em linhas gerais, após o Big Bang, um período inicial de expansão extremamente rápida - a inflação - gerou flutuações primordiais na densidade da matéria, extremamente pequenas (da ordem de 1 parte em 100.000). Essas minúsculas diferenças de densidade cresceram gradualmente ao longo de bilhões de anos devido à ação da gravidade, dando origem às grandes concentrações de matéria que hoje formam a teia cósmica.

Essas flutuações primordiais não são apenas inferências teóricas: elas podem ser observadas diretamente no mapa da radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMB). Esse mapa, que retrata o universo quando ele tinha apenas cerca de 380 mil anos de idade, já mostra o padrão inicial de variações de densidade que, com o passar do tempo, evoluiria para a rede de filamentos, nós, paredes e vazios que observamos atualmente. De certa forma, a teia cósmica já estava "desenhada" naquele momento primordial.

CMB Planck
O mapa mais preciso da CMB foi obtido pelo Telescópio Espacial Planck, da ESA.
[Créditos: ESA/Planck Collaboration, ESA Standard Licence]

Hoje sabemos que é a matéria escura que domina a formação da estrutura em larga escala do universo e, em última análise, esculpe os filamentos da teia cósmica, pelos quais fluem gases cósmicos que alimentam a formação de galáxias.

Mas ainda existem questões fundamentais em aberto:

  • Qual é a natureza da matéria escura, cuja presença é essencial para explicar a dinâmica gravitacional observada?
  • Qual é a natureza da energia escura, responsável pela expansão acelerada do universo?
  • Qual foi o mecanismo físico que impulsionou a inflação? Embora a inflação e a energia escura produzam efeitos semelhantes (expansão acelerada), tratam-se, muito provavelmente, de fenômenos físicos distintos.

Para se aprofundar nesses temas, recomendamos a leitura de nossa série de artigos sobre o modelo cosmológico padrão.

O que são os filamentos cósmicos?

A teia cósmica é composta por nós, filamentos (os "fios" da teia), paredes e imensos vazios, intrinsecamente entrelaçados. A matéria escura e os gases, sob a ação da gravidade, esculpem essa arquitetura, enquanto as galáxias funcionam como marcadores visíveis que traçam suas características.


Teia Cósmica
Representação artística do campo de densidade e das estruturas da teia cósmica, em analogia com uma cadeia de montanhas. [Créditos: Daniela Galárraga-Espinosa/MPA]

Desde sua descoberta, na década de 1980, a teia cósmica vem sendo meticulosamente mapeada por numerosos levantamentos de galáxias, cada um fornecendo informações únicas sobre a estrutura do cosmos.

Entretanto, enquanto os densos aglomerados de galáxias (os nós) foram exaustivamente estudados, os filamentos cósmicos - menos densos, mais extensos e intrincados - permanecem relativamente menos compreendidos.

Seus sinais observacionais são muito mais fracos. A densidade de matéria escura nesses filamentos é significativamente menor do que nos aglomerados, o que dificulta sua detecção direta em levantamentos astronômicos.

Ainda assim, simulações cosmológicas indicam que os filamentos podem conter a maior fração da matéria bariônica "perdida" do universo - o chamado problema dos missing baryons (bárions ocultos). Compreendê-los, portanto, é essencial para uma visão mais completa do cosmos e para entender como as galáxias se formam e evoluem dentro dessa vasta rede interligada.


Componentes da teia cósmica
Simulação de diferentes componentes materiais da teia cósmica: matéria escura, gás, galáxias e filamentos. [Créditos: Daniela Galárraga-Espinosa/MPA]

Novos insights

Um estudo conduzido pela pesquisadora Daniela Galárraga-Espinosa, do Max Planck Institute for Astrophysics (MPA), em colaboração com colegas locais e internacionais, utilizou a ferramenta de simulação numérica de última geração MillenniumTNG para investigar com mais profundidade a intrincada estrutura da teia cósmica em diferentes épocas do universo.

O artigo científico, intitulado Evolution of cosmic filaments in the MTNG simulation, foi publicado em 03/04/2024 pela EDP Sciences e posteriormente destacado em matéria do MPA, publicada em 01/06/2024 (link nas referências).

Simulações hidrodinâmicas realizadas em diferentes valores de desvio para o vermelho (z = 0, 1, 2, 3 e 4) permitiram a construção de catálogos extremamente detalhados de filamentos cósmicos.

A "espinha dorsal" do universo pôde então ser estudada em termos de evolução espacial ao longo do tempo, com medições de comprimentos, taxas de crescimento e perfis de densidade radial, resultando em insights inéditos sobre a evolução e a diversidade dos filamentos:

  • Propriedades globais ao longo do tempo
    Os comprimentos dos filamentos e seus perfis de densidade mostram-se notavelmente estáveis ao longo de aproximadamente 12,25 bilhões de anos. A população global de filamentos sofreu alterações mínimas ao longo da história cósmica.
  • Rastreamento de filamentos individuais
    Pela primeira vez, um grande número de filamentos pôde ser associado em diferentes redshifts (níveis de desvio da luz para o vermelho devido à expansão do universo), permitindo acompanhar a evolução de estruturas individuais ao longo do tempo. Embora alguns filamentos possam se contrair ou se alongar significativamente, suas propriedades globais tendem a ser preservadas.
  • Diversidade entre filamentos
    Em todos os redshifts estudados, os filamentos mais longos excedem 100 megaparsecs - duas ordens de magnitude maiores que os mais curtos. Além disso, esses filamentos extremos apresentam perfis de densidade bastante distintos. O estudo indica que fatores ambientais desempenham papel fundamental: filamentos em regiões densas tendem a colapsar e encurtar, enquanto aqueles próximos a vazios cósmicos se expandem à medida que a teia evolui.
  • Catálogos mais robustos
    A equipe desenvolveu um método ancorado em princípios físicos para calibrar e testar rigorosamente os "esqueletos" cósmicos identificados por algoritmos, promovendo maior confiabilidade e padronização nas técnicas de detecção de filamentos.

Evolução da teia cósmica
Fatias da simulação MilleniumTNG, mostrando a distribuição das galáxias (parte superior) e os filamentos associados (parte inferior), em diferentes tempos cósmicos. [Créditos: Daniela Galárraga-Espinosa/MPA]

Um grande marco recente foi a obtenção da primeira imagem direta de um filamento cósmico, anunciada em fevereiro de 2025. Essa observação confirmou diretamente previsões feitas por simulações cosmológicas há décadas.

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Teia cósmica
Estrutura da teia cósmica elaborada por supercomputador, uma previsão que combina perfeitamente com a primeira foto real de um filamento cósmico. É notória a semelhança visual dessa estrutura com uma rede neural (cerebral), fato que frequentemente estimula especulações de caráter filosófico e metafísico. [Imagem: Alejandro Benitez-Llambay/Universität Mailand-Bicocca/MPA]




★ Edição: Mauro Mauler - Publicado originalmente em 17/10/2023 - Última revisão: 18/02/2026.

★ Referências:

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