17/12/2025
Desvendando o cometa 3I/ATLAS
Cometa interestelar cruza o Sistema Solar, alimenta especulações sobre origem artificial e oferece pistas inéditas sobre objetos vindos de outros sistemas estelares.

A trajetória
O 3I/ATLAS, também denominado C/2025 N1 (ATLAS), é apenas o terceiro objeto interestelar (I) descoberto até hoje - isto é, um corpo que se originou fora do Sistema Solar. Esse fato, por si só, já o torna de grande interesse científico, pois permite investigar, por meio de suas características físicas e químicas, o ambiente de onde veio.
O objeto foi identificado por um telescópio no Chile integrante do Sistema de Alerta de Impacto Terrestre de Asteroides da Universidade do Havaí (ATLAS - Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System), que relatou a observação em 1º de julho deste ano, quando ele se encontrava a cerca de 670 milhões de quilômetros de distância, nas imediações da órbita de Júpiter, vindo da direção da constelação de Sagitário, ou seja, aproximadamente na direção do centro da galáxia.
Após esse primeiro anúncio, observações anteriores foram recuperadas a partir dos arquivos de três telescópios ATLAS distintos ao redor do mundo e da Instalação de Transientes Zwicky, no Observatório Palomar (Condado de San Diego, Califórnia). Essas chamadas “pré-descobertas” remontam a 14 de junho. Desde então, muitos outros telescópios realizaram observações adicionais.
As análises iniciais permitiram determinar sua trajetória e alta velocidade, fatores decisivos para que os cientistas concluíssem que se tratava de um corpo proveniente de fora do Sistema Solar.

[Créditos: ATLAS/Universidade do Havaí/NASA]
O 3I/ATLAS está adentrando o Sistema Solar, mas não representa qualquer perigo para a Terra. A menor distância que atingirá em relação ao nosso planeta será de aproximadamente 270 milhões de quilômetros (∼1,8 UA), prevista para a próxima sexta-feira, dia 19 de dezembro, de acordo com elementos orbitais publicados pelo JPL/NASA. Essa aproximação constitui uma excelente oportunidade para observações mais detalhadas.
Bem mais próximo ele passou de Marte, do qual se aproximou entre 28 e 30 milhões de quilômetros (∼0,19 UA) em 3 de outubro. Nesse mesmo mês, no dia 29, atingiu sua maior aproximação com o Sol - o periélio - a cerca de 210 milhões de quilômetros (∼1,4 UA) de nossa estrela.
Após a passagem pela Terra, o cometa continuará seu caminho até deixar o Sistema Solar, uma vez que a força gravitacional do Sol não é suficiente para capturá-lo em órbita, devido à sua elevada velocidade. Em outras palavras, trata-se de um visitante passageiro: veio de algum sistema estelar desconhecido, do qual foi ejetado para uma viagem interestelar que pode ter durado milhões ou até bilhões de anos.
O 3I/ATLAS continuará acessível aos nossos telescópios até o outono de 2026 (primavera no Hemisfério Norte). Está previsto que, em 16 de março, ele passe a uma distância entre 50 e 54 milhões de quilômetros de Júpiter. A interação gravitacional com o planeta gigante provocará um desvio em sua rota, direcionando-o para a região da constelação de Gêmeos.
Após deixar nosso campo de visão, nunca mais veremos o 3I/ATLAS. Ainda assim, ele permanecerá viajando pelo Sistema Solar por muito mais tempo. Embora existam divergências entre os modelos quanto ao momento exato em que cruzará o equivalente à órbita de Netuno, há consenso de que isso ocorrerá entre 2026 e 2028. A saída definitiva do sistema só se dará após a travessia da nuvem de Oort, daqui a milhares de anos.
Resumo - Eventos principais
| Data | Evento | Distância / Observações |
|---|---|---|
| 03/10/2025 | Maior aproximação de Marte | ∼ 28 a 30 milhões de km (∼0,19 UA) |
| 29/10/2025 | Maior aproximação do Sol | ∼210 milhões de km (∼1,4 UA) |
| Nov/2025 | Entrada no Sistema Solar interior | Observado por diversos telescópios |
| Dez/2025 | Visibilidade crescente | Magnitude em queda gradual |
| 19/12/2025 | Maior aproximação da Terra | ∼270 milhões de km (1,8 UA) |
| Jan/2026 | Relativamente próximo à Terra | ∼200-300 milhões de km |
| Fev/2026 | Saída rumo ao espaço interestelar | Rápida diminuição de brilho |

Características do 3IATLAS
Desde a descoberta, praticamente todos os grandes telescópios — terrestres e espaciais — vêm acompanhando o 3I/ATLAS. Muito já se conhece sobre suas propriedades, como cor, velocidade e direção, todas compatíveis com o que se espera de um cometa.
Velocidade
Quando observado pela primeira vez, o objeto deslocava-se a cerca de 221.000 km/h. À medida que se aproximou do Sol, a gravidade solar não apenas desviou sua trajetória como também o acelerou, levando-o a atingir uma velocidade máxima de aproximadamente 246.000 km/h no periélio. Na sequência do percurso, sua velocidade diminuirá progressivamente, e o 3I/ATLAS deixará o Sistema Solar com valor semelhante ao da entrada.
Trajetória
Uma hipérbole é uma curva aberta e simétrica. Como mostram as simulações apresentadas anteriormente, a trajetória do 3I/ATLAS é hiperbólica, com uma curvatura acentuada durante a passagem pelo Sol, em função da força gravitacional exercida por nossa estrela.
Visibilidade
Durante o período de maior aproximação do Sol, no mês de outubro, o cometa não foi visível a partir da Terra, pois nosso planeta se encontrava do lado oposto da órbita. A partir de 31 de outubro, ele reapareceu no céu e pode ser observado novamente, inclusive com telescópios mais modestos, antes do amanhecer. A previsão é que permaneça observável até o outono de 2026.
Núcleo e coma
Sabe-se que o 3I/ATLAS possui um núcleo congelado envolto por uma coma, uma tênue atmosfera que, ao se aquecer com a aproximação do Sol, dá origem à cauda gasosa típica dos cometas. Com base em observações do Hubble realizadas em agosto, os astrônomos estimaram que o núcleo tenha entre 440 metros e 5,6 quilômetros de diâmetro.
Composição química
Análises espectroscópicas da coma, obtidas com múltiplos instrumentos, revelaram a predominância de CO₂ (dióxido de carbono) e uma quantidade relativamente pequena de água, resultando em uma razão CO₂/H₂O elevada (≈ 4-8:1 nas primeiras estimativas). Também foram detectados traços de CO (monóxido de carbono), OCS (sulfeto de carbonila) e CN (cianeto), além de emissões atômicas de níquel - energia liberada sob a forma de fótons por átomos de níquel neutro (Ni I) em estado excitado. Observou-se ainda que o cometa é pobre em cadeias de carbono, isto é, em moléculas orgânicas mais complexas.
O 3I/ATLAS é um cometa atípico?
Em comparação com os cometas mais conhecidos, sim. Ele apresenta características incomuns, o que é esperado para um objeto originário de um ambiente estelar desconhecido e possivelmente muito diferente do nosso:
- Origem interestelar e trajetória hiperbólica.
- Razão CO₂/H₂O significativamente maior do que a observada em cometas típicos.
- Emissão de Ni I sem a correspondente presença de ferro (Fe).
- Presença inicial de coma proeminente, mas sem cauda visível em distâncias nas quais cometas comuns já exibem caudas longas.
- Aceleração não gravitacional nas proximidades do periélio, antes e depois da maior aproximação ao Sol.
- Superfície ativa, com emissão de OH (hidroxila), sugerindo sublimação de água mesmo a distâncias superiores a 3 UA do Sol.
- Variações de cor e brilho, assumindo coloração mais azulada na aproximação com o Sol, em contraste com o tom avermelhado típico de muitos cometas.

O 3I/ATLAS é uma espaçonave alienígena?
Justamente por exibir algumas características incomuns ainda em investigação, proliferaram notícias sensacionalistas sugerindo que o comportamento do 3I/ATLAS seria conduzido de forma inteligente, como se fosse uma espaçonave enviada por uma civilização extraterrestre.
Segundo essas narrativas, a aceleração não gravitacional observada próximo ao periélio indicaria a presença de propulsores; as oscilações de brilho e as mudanças de coloração seriam interpretadas como luzes artificiais; e supostas “caudas invertidas” seriam vistas como prova de que não se trata de um cometa.
Também gerou especulações a detecção de ondas de rádio associadas ao objeto pelo radiotelescópio MeerKAT, integrante do sistema SARAO - South African Radio Astronomy Observatory (South African Radio Astronomy Observatory). No entanto, a emissão de rádio é comum em cometas e, no caso do 3I/ATLAS, decorre da presença de radicais OH (hidroxila), formados quando o gelo de água se dissocia na coma sob a ação da luz solar. Esses radicais produzem linhas características em frequências específicas, em torno de 1,665 e 1,667 Ghz.
Outro argumento invocado em especulações sobre a presença de tecnologia inteligente foi o fenômeno informalmente apelidado de "batimento cardíaco": uma variação de brilho descrita como ocorrendo a cada cerca de 16 minutos, às vezes apresentada de forma simplista como um "pisca-pisca". De fato, o 3I/ATLAS exibe variações de luminosidade quase periódicas, mas esse comportamento é comum em cometas ativos e está associado à rotação do núcleo combinada com a liberação intermitente de gases e poeira. Esses intervalos não são perfeitamente regulares e podem variar conforme a atividade do objeto, não constituindo evidência de um mecanismo artificial.
Narrativas ainda mais ousadas chegaram a sugerir que o objeto estaria traçando deliberadamente uma rota para se estabelecer em uma órbita entre a Terra e Marte, com a suposta intenção de observar nosso planeta - ou algo ainda mais fantasioso.
A hipótese de que o 3I/ATLAS possa ser uma nave alienígena foi amplamente divulgada após manifestações do cientista de Harvard Avi Loeb, que chegou a estimar entre 30% e 40% a probabilidade de o objeto ser um artefato tecnológico. Loeb, em colaboração com Adam Hibberd e Adam Crowl, é autor do artigo Is the Interstellar Object 3I/ATLAS Alien Technology?, publicado na arXiv em versão preprint (não revisada por pares) em 16 de outubro de 2025.
Loeb é conhecido por seu interesse em pesquisas de fronteira e já havia sugerido, anteriormente, que o objeto interestelar 'Oumuamua poderia ter origem artificial. É importante notar que a intenção declarada dos autores não foi apresentar uma conclusão definitiva, mas defender que hipóteses não convencionais também possam ser consideradas no debate científico - argumento que, até certo ponto, é legítimo.
Contudo, o conjunto de observações acumuladas até o momento praticamente encerra a questão. As imagens mais recentes divulgadas pela NASA evidenciam claramente a morfologia cometária do 3I/ATLAS, com núcleo, coma e cauda bem definidos. Nenhuma análise revelou qualquer indício de estruturas artificiais; pelo contrário, tudo aponta para um cometa autêntico, ainda que incomum.
É natural que apresente aspectos "exóticos", pois trata-se de um objeto recém-descoberto e oriundo de um ambiente estelar diferente do nosso. Ainda assim, todas as suas características observadas são compatíveis com explicações baseadas em processos físicos e químicos naturais. A verdadeira importância científica do 3I/ATLAS está na rara oportunidade de estudar material proveniente de outros sistemas planetários e ampliar nosso entendimento sobre a diversidade de objetos no Universo.


★ Edição: Mauro Mauler - Artigo publicado em 17/12/2025.
★ Referências:
- Comet 3I/ATLAS (página da NASA).
- CORDINER, Martin A. et al. JWST detection of a carbon dioxide dominated gas coma surrounding interstellar object 3I/ATLAS (preprint). arXiv, 25/08/2025. Última revisão: 10/09/2025 (v3).
- ESA's Mars and Jupiter missions observe comet 3I/ATLAS. European Space Agency - ESA, 26/09/2025.
- LOEB, Avi; HIBBERD, Adam; CROWL, Adam. Is the Interstellar Object 3I/ATLAS Alien Technology? (preprint). arXiv, 16/10/2025.
- NASA Science Editorial Team. NASA Discovers Interstellar Comet Moving Through Solar System. NASA's Planetary Defense, 02/07/2025.
- RAHATGAONKAR, Rohan et al. VLT observations of interstellar comet 3I/ATLAS (catalog ) II. From quiescence to glow: Dramatic rise of Ni I emission and incipient CN outgassing at large heliocentric distances. arXiv, 25/08/2025.
- South African telescope detects natural radio emission - and no signal of technological origin - from the interstellar visitor 3I/ATLAS.. SARAO - South African Radio Astronomy Observatory.
- SPHEREx Discovers Extended Carbon Dioxide Coma in Interstellar Object 3I-ATLAS. NASA/JPL-Caltech, 21/08/2025 (News Release).
Mais notícias...

