Nobel de Física de 2026 premia método astronômico que captura neutrinos de alta energia no gelo do Polo Sul, vindos dos primórdios do universo
O prêmio foi concedido ao físico belga Francis Halzen, principal mentor do Observatório IceCube, um sistema totalmente novo de observação astronômica.
O laureado
A Real Academia Sueca de Ciências concedeu o Prêmio Nobel de Física de 2026 ao físico de partículas belga Francis Halzen (1944—), professor e pesquisador da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos. Ele é o primeiro cientista a receber sozinho o prêmio desde 1992. A escolha foi anunciada em 6 de outubro.
O Nobel consiste em uma medalha, um diploma e um prêmio em dinheiro de 12 milhões de coroas suecas, equivalentes a aproximadamente 1,2 milhão de dólares ou 6 milhões de reais, conforme a cotação cambial.
Halzen percebeu que o gelo da Antártida poderia ser utilizado para detectar neutrinos e investigar suas origens cósmicas. Sua visão e liderança científica foram fundamentais para o desenvolvimento do Observatório de Neutrinos IceCube, que permite aos pesquisadores estudar partículas provenientes de processos de altíssima energia no universo.
Nas palavras de Mark Pearce, presidente do Comitê Nobel de Física, "Francis Halzen liderou uma equipe internacional de pesquisadores e engenheiros que nos proporcionou um instrumento fantástico. Sua tenacidade e visão científica abriram caminho para um novo tipo de astronomia".
Mensageiros do espaço
O universo abriga objetos capazes de liberar quantidades imensas de energia. Alguns processos cósmicos aceleram partículas a energias muito superiores às que podem ser alcançadas nos aceleradores de partículas construídos na Terra.
Esses fenômenos produzem diferentes tipos de radiação e partículas, que chegam até nós como mensageiros portadores de informações sobre os processos que lhes deram origem.
As propriedades dos neutrinos permitem investigar aceleradores cósmicos de partículas e regiões do universo que podem permanecer ocultas quando observadas apenas por meio da radiação eletromagnética.
Partículas quase invisíveis
Os neutrinos são partículas eletricamente neutras e de massa extremamente pequena, mas não nula. Estão presentes em todo o universo e, em geral, atravessam a matéria sem interagir com ela. Trilhões dessas partículas passam pelo nosso corpo a cada segundo sem deixar qualquer sinal perceptível. Sua detecção, entretanto, é possível quando interagem com outras partículas, produzindo sinais que instrumentos especiais conseguem registrar — um evento relativamente raro.
A existência do neutrino foi proposta em 1930 pelo físico austríaco Wolfgang Pauli para explicar resultados observados no decaimento beta, um tipo de transformação radioativa em que a energia e o momento linear pareciam não ser conservados. Para preservar a lei da conservação da energia, Pauli sugeriu que uma partícula neutra e muito leve levava consigo parte da energia liberada no processo.
Em 1933, o físico italiano Enrico Fermi desenvolveu uma teoria para a interação fraca, responsável pelo decaimento beta, e adotou o nome “neutrino” para a partícula hipotética. A palavra, em italiano, significa “pequeno neutro”.
Como os neutrinos interagem muito pouco com a matéria, sua detecção experimental parecia extremamente difícil. A confirmação veio em 1956, quando os físicos Clyde L. Cowan e Frederick Reines utilizaram um reator nuclear como fonte de antineutrinos e construíram um detector capaz de registrar os raros sinais produzidos por suas interações com a matéria. O experimento confirmou a existência dessas partículas. Reines recebeu o Prêmio Nobel de Física de 1995; Cowan havia falecido em 1974.
Em 2002, Raymond Davis Jr. e Masatoshi Koshiba foram laureados com o Nobel de Física por suas contribuições à astronomia de neutrinos. Davis foi reconhecido pela detecção de neutrinos solares, enquanto Koshiba foi premiado por suas observações de neutrinos provenientes da supernova SN 1987A, na Grande Nuvem de Magalhães. Na mesma edição, Riccardo Giacconi recebeu metade do prêmio por suas contribuições pioneiras à astronomia de raios X.
Desde então, a astronomia de neutrinos avançou consideravelmente. Essas partículas são produzidas em diferentes processos, incluindo as reações nucleares que alimentam as estrelas, as explosões de supernovas, as interações de raios cósmicos com a matéria e os processos que ocorrem nas proximidades de objetos astrofísicos extremamente energéticos. Também existem neutrinos primordiais, produzidos no universo muito jovem, cuja população constitui uma previsão importante da cosmologia.
Como os neutrinos não possuem carga elétrica e raramente interagem com a matéria, suas trajetórias não são desviadas por campos magnéticos e eles podem atravessar grandes quantidades de matéria sem serem absorvidos. Isso permite que tragam informações de regiões distantes e de ambientes cósmicos densos, nos quais parte da radiação eletromagnética pode ser bloqueada ou absorvida.
Já na década de 1980, Francis Halzen percebeu que o gelo da Antártida poderia ser utilizado como meio de detecção de neutrinos de alta energia. Um volume imenso de gelo transparente, equipado com sensores capazes de captar sinais luminosos muito tênues, poderia funcionar como um detector de dimensões extraordinárias e ajudar os pesquisadores a investigar as origens dessas partículas.
Halzen ajudou a mobilizar pesquisadores e engenheiros em torno dessa ideia. Em 1992, começaram as primeiras tentativas de instalar sensores de luz no gelo do Polo Sul, dando início a uma longa trajetória de desenvolvimento tecnológico e científico.
O grande avanço veio décadas depois. Em 2013, o IceCube apresentou evidências convincentes de um fluxo de neutrinos de alta energia provenientes de fontes astrofísicas, demonstrando que era possível investigar o universo por meio dessas partículas. A busca por suas fontes cósmicas havia começado para valer.
Como funciona o IceCube?
Um observatório no gelo
Quando um neutrino interage com a matéria, pode produzir partículas eletricamente carregadas. Ao atravessarem o gelo, algumas dessas partículas emitem uma tênue luz azulada, conhecida como radiação Cherenkov. O IceCube foi projetado para captar essa luz e, a partir dela, reconstruir as características da interação.
O observatório registra a luz produzida por partículas secundárias quando neutrinos de alta energia interagem no gelo. As energias desses neutrinos podem ser milhares ou até bilhões de vezes superiores às energias características das reações de fusão que alimentam o Sol. A quantidade de luz detectada, sua distribuição e o momento em que chega aos sensores ajudam os pesquisadores a estimar a energia e a direção do neutrino original e, em determinados casos, inferir seu tipo.
O sistema consiste em aproximadamente um quilômetro cúbico de gelo instrumentado com sensores ópticos instalados em longos cabos, além de uma estrutura na superfície que recebe e processa os sinais. Os dados são transmitidos para análise científica, permitindo reconstruir os eventos registrados pelo detector.
1. Partículas e luz
A maioria dos neutrinos que chegam ao IceCube atravessa o detector sem deixar registro. Os poucos neutrinos que colidem com um núcleo atômico produzem luz que pode ser captada e analisada.
Existem três tipos diferentes de neutrinos que produzem padrões distintos no IceCube. Quando um neutrino de elétron ou tau colide com um núcleo atômico, provoca uma cascata de partículas que ilumina a região ao redor da colisão. Um neutrino de múon que colide não apenas produz uma cascata, mas também uma partícula, um múon, que deixa um longo rastro de luz através do gelo.
2. Módulos ópticos
O sensor que capta a luz está alojado em um invólucro de vidro e voltado para baixo. O invólucro também contém os componentes eletrônicos que processam o sinal antes que ele seja enviado para a superfície. O conjunto completo é chamado de módulo óptico.
Evolução das pesquisas
Essa nova forma de observação astronômica abre possibilidades científicas importantes, incluindo o estudo dos neutrinos em faixas de energia inacessíveis aos aceleradores de partículas convencionais.
Um dos principais objetivos da pesquisa é identificar fontes individuais de neutrinos cósmicos. Entre os candidatos mais promissores está a galáxia ativa NGC 1068, também conhecida como M77. Análises do IceCube encontraram evidências de emissão de neutrinos de alta energia na direção dessa galáxia. Um dos estudos identificou um excesso de eventos compatível com a emissão de neutrinos pela fonte, mas a investigação dessas galáxias e dos mecanismos responsáveis pela produção das partículas continua. O acúmulo de dados e o aprimoramento das análises podem ajudar a esclarecer a origem desses sinais.
O IceCube também detectou neutrinos de alta energia associados à nossa própria galáxia. Em 2023, a colaboração anunciou evidências de emissão de neutrinos provenientes do plano da Via Láctea. Acredita-se que parte deles seja produzida quando raios cósmicos interagem com átomos do gás rarefeito existente entre as estrelas.
A astronomia de neutrinos deve avançar nos próximos anos, à medida que novos observatórios complementem o trabalho pioneiro do IceCube. Há iniciativas em diferentes estágios de desenvolvimento no Hemisfério Norte, algumas projetadas para detectar neutrinos na água, em vez de no gelo.Um dos primeiros projetos que buscaram desenvolver um observatório desse tipo foi o DUMAND, que acabou encerrado em 1995. Seu legado científico e tecnológico, porém, permanece em iniciativas posteriores, incluindo observatórios no lago Baikal, na Rússia, no mar Mediterrâneo e projetos em desenvolvimento no Oceano Pacífico.
Enquanto isso, o IceCube continua coletando dados, e uma expansão de grande porte está sendo planejada para o Polo Sul: o IceCube-Gen2. O projeto deverá ampliar significativamente a capacidade de detecção do observatório, com uma instrumentação que abrangerá vários quilômetros cúbicos de gelo.
★ Referências:
- IceCube Neutrino Laboratory — página oficial.
- NobelPrize.org. The Nobel Prize in Physics 2026.
- NobelPrize.org. The Nobel Prize in Physics 2026 — Press release (PDF).
- NobelPrize.org. Scientific Background to the Nobel Prize in Physics 2026 (PDF).